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azar o seu querida.
[por uma vida menos ordinária.]
Segunda-feira, Março 28, 2005
smoke on the water
Fumante passiva desde que podia se lembrar, ultimamente ela andava sentido muita vontade de fumar ativamente. Podia se imaginar conversando com as pessoas enquanto fumava, fazendo pose com um cigarro nas mãos, como as atrizes estilosas no cinema. Ensaiava pra entrar em botecos, postos de gasolina e bancas de revista: uma carteira de Luke Strike por favor. Sim, porque já que era pra fumar, que fossem cigarros fortes. E então ela ria ao mesmo tempo em que se lembrava que não entendia nada de cigarros afinal, qualquer um seria forte. Mas definitivamente, ela voltava a dizer pra si mesma, já que é pra fumar, nada de cigarros mentolados ou com cheiro de canela, que a deixavam enauseada.
Uma vez, com todo o cuidado de uma criminosa principiante, roubara um cigarro de alguém. Levou-o pra casa bem guardado num canto da bolsa e trancou-se no quarto pra fumar escondida, mesmo morando sozinha.
Não foi o esperado.
Como quase tudo em sua vida, não foi como ela achava que fosse ser. Estava certa de que, pelo menos no cinema, a sensação não era aquela.
Foi até o banheiro, jogou o cigarro, ainda pela metade, na privada e deu descarga, num gesto simbólico do que gostaria de fazer com todas as suas frustrações e decepções.
Infelizmente, ela pensou, pouquíssimas coisas na vida eram pequenas como um cigarro pela metade.
Criado e editado por
ju em 1:18:39 PM |
Terça-feira, Março 22, 2005
cher antoine
[capítulo 01]
Sempre parecera a Antoine contabilizar sua idade como os cães. Quando tinha sete anos, ele se sentia gasto como um homem de quarenta e nove anos; aos onze, tinha desilusões de um velho de setenta e sete anos. Hoje, aos vinte e cinco, na expectativa de uma vida mais tranqüila, Antoine tomou a decisão de cobrir o cérebro com o manto da estupidez. Ele constatara muitas vezes que inteligência é palavra que designa baboseiras bem construídas e lindamente pronunciadas, e que é tão traiçoeira que freqüentemente é mais vantajoso ser uma besta que um intelectual consagrado. A inteligência torna a pessoa infeliz, solitária, pobre, enquanto o disfarce de inteligente oferece a imortalidade efêmera do jornal e a admiração dos que acreditam no que lêem.
A chaleira começou a emitir um assobio sofrido. Antoine verteu a água fremente numa xícara azul decorada com uma lua rodeada de duas rosas vermelhas. As folhas de chá se abriram turbilhonando, difundindo a sua cor e o seu perfume, enquanto o vapor se evolava e se mesclava ao corpo do ar. Antoine sentou-se à escrivaninha diante da única janela do seu estúdio em desordem.
Ele passara a noite escrevendo. Em um grande caderno pautado, após muitas tentativas, após páginas de rascunho, ele enfim conseguira dar forma ao seu manifesto. Antes disso, durante semanas ele se extenuara para encontrar pretextos, para imaginar subterfúgios desafiadores. Mas terminara por admitir a pavorosa verdade: era o seu próprio espírito a causa da sua infelicidade. Nesta noite de julho, Antoine tinha, pois, anotado os argumentos que deviam justificar a sua renúncia ao pensamento. O caderno permaneceria como testemunho do seu projeto, para o caso de ele não sair incólume de tão perigosa experiência. Mas sem dúvida ali estava, acima de tudo, o meio de ele próprio convencer-se da validade de seu malogro, uma vez que essas páginas de justificativas tinham o aparato de uma demonstração racional.
Um passarinho tamborilou o bico na vidraça. Antoine ergueu os olhos do caderno e, como para responder, tamborilou com a caneta. Bebeu um gole de chá, esticou-se na cadeira e, passando a mão nos cabelos um tanto gordurosos, pensou que precisava roubar xampu do mercado da esquina. Antoine não se sentia com alma de ladrão; não tinha suficiente agilidade para isso, razão por que surrupiava tão-somente aquilo de que tinha necessidade: um xampu que comprimia discretamente numa pequena caixa de bombons. Ele procedia da mesma maneira com relação à pasta de dentes, ao sabonete, ao creme de barbear, às passas, às cerejas; arrecadando o seu dízimo, furtava, quotidianamente, nas grandes lojas e supermercados. Igualmente, por não ter dinheiro suficiente para adquirir todos os livros que desejava e tendo observado a acuidade dos guardas-noturnos e a sensibilidade dos aparelhos de segurança das megalivrarias, roubava os livros página por página e reconstituía-os no seu apartamento, como um editor clandestino. Sendo obtida por delito, cada página adquiria um valor simbólico muito maior do que teria se estivesse colada e perdida entre os seus pares; destacada de um livro, furtada, e depois pacientemente reunida, tornava-se sagrada. A biblioteca de Antoine contava, assim, com uma vintena de livros reconstituídos na sua preciosa edição particular.
Então, quando o dia acabava de raiar, exausto pela noite em claro, ele se apressou a dar uma conclusão à sua proclamação. Após um instante de hesitação com a extremidade da caneta entre os dentes, ele começou a escrever, a cabeça pendendo sobre o caderno, a língua a percorrer a borda dos lábios:
"Não há nada que me enerve mais do que essas histórias em que o herói, no final, voltará à situação inicial após ter vencido qualquer coisa. Ele terá corrido riscos, terá saído vitorioso das aventuras, mas, no fim, voltará a estar como no princípio. Não quero participar dessa mentira: fazer de conta de que não se conhece a conclusão de tudo isso. Sei perfeitamente que essa viagem à estupidez vai transformar-se num hino à inteligência. Será a minha pequena Odisséia pessoal: após muitas provações e aventuras perigosas, encontrarei Ítaca. Sinto já o odor de aguardente e de folhas de videira recheadas. Seria hipócrita não dizê-lo, não dizer que, desde o início da história, se sabe que o herói vai safar-se, que ele até vai sair engrandecido por causa das provas. Um desfecho artificialmente construído para parecer natural proclamará uma lição do gênero: É bom pensar, mas é preciso aproveitar a vida. O que quer que digamos, o que quer que façamos, haverá sempre uma moral a brotar nos prados da nossa personalidade.
"Hoje é quarta-feira 19 de julho, e o sol decide enfim deixar o seu refúgio. Eu gostaria de poder dizer, na conclusão desta aventura, como certo personagem do filme Nascido para matar: Estou num mundo de merda, mas estou vivo e não tenho medo."
Antoine pousou a caneta e fechou o caderno. Bebeu um gole de chá, mas o líquido tinha esfriado. Espreguiçou-se e esquentou a água num pequeno fogareiro a gás pousado no chão mesmo. O passarinho tamborilou com o bico no vidro da janela. Antoine abriu a janela e pôs um punhado de grãos de girassol no parapeito.
trecho do livro "Como Me Tornei Estúpido" de Martin Page.
Criado e editado por
ju em 10:21:11 AM |
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