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azar o seu querida.

[por uma vida menos ordinária.]

 

Quinta-feira, Agosto 25, 2005


quase.nada: andrea mello

uma vez uma amiga minha se apaixonou por dois garotos. um dia um amigo meu foi para a cama com duas garotas que conheceu naquele mesmo dia. uma colega de trabalho minha uma vez comprou um batom que não era da cor que ela queria e deu para uma outra pessoa. um primo meu troca de celular todo ano. um conhecido troca de namorada. um incorrigível troca de amor [todo ano]. e agora eu pergunto: você sabe o que os garotos, as garotas, o batom, o celular, a namorada e o amor têm de comum entre si [hoje em dia]? eles são todos descartáveis. as pessoas ficam umas com as outras e, no dia seguinte, às vezes fazem de conta que são apenas bons amigos, às vezes fazem de conta que não se conhecem e às vezes ficam com outras pessoas. a amiga de uma amiga minha gosta muito de um garoto. e ele, dela. há um ano eles ficam. eles não telefonam um para o outro, nem combinam de sair para jantar, mas eles ficam com outras pessoas. eles se gostam, e se descartam. porque hoje, o que não é descartável é démodé, igual roupa da coleção passada e celular que não tira foto. o descartável torna a vida muito mais prática, como abrir a lata do lixo e jogar fora [mas jogar o quê?]. e eu fico aqui me perguntando, se as pessoas não se importam de magoarem umas às outras ou se elas simplesmente não se magoam por serem e tornarem os outros descartáveis. as pessoas usam umas às outras. para se tornarem populares. para se sentirem importantes. para não se sentirem sós. para conseguirem um emprego. para conseguirem dinheiro. e depois elas descartam o que não interessa mais. os relacionamentos terminam sem conversas amigáveis ou sem conversa alguma. e, hoje, para ser relacionamento tem que ser namoro oficializado ou noivado efetuado. todas as noites em mesas de bares, no carro pela cidade e na porta de casa não fazem do sentimento um relacionamento. nem o próprio sentimento parece ser capaz de fazer de si próprio um relacionamento. às vezes me pergunto se amores de verdade realmente existem. e então me lembro de uma amiga que não tinha celular até pouco tempo. e lembro que eu a-do-ro roupas de coleções passadas. e lembro de um casal de amigos que são as almas mais gêmeas que eu já conheci [até os cabelos!]. e todo mundo sabe que a coca-cola da garrafa de vidro é mais gostosa do que a da latinha e do que a da garrafa de plástico. e aprendo que as exceções existem [para confirmar a regra]. mas que se danem as regras!

Criado e editado por ju em 10:58:45 AM |

 

Domingo, Agosto 14, 2005


por uma vida menos ordinária.






Criado e editado por ju em 3:49:24 AM |

 

Segunda-feira, Agosto 01, 2005


sugestões para atravessar agosto
caio fernando abreu (6/8/1995 - para o jornal o estado de são paulo)

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade...Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

Criado e editado por ju em 9:43:04 AM |