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azar o seu querida.

[por uma vida menos ordinária.]

 

Sábado, Fevereiro 11, 2006


para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro:

O perigo é a gente sumir no mundo de mochila e ir parar em alguma cidade do leste europeu. O perigo é a gente querer viver de luz, cinema e música e percebermos um belo dia que não saímos de casa há meses. O perigo é a gente se isolar do mundo pra escrever um roteiro e demorar nisso, felizes e satisfeitos, até o mundo esquecer da gente. O perigo é eu topar ir com você pra lua. O perigo é as pessoas invejarem a sua mulher arquiteta-cenógrafa-designer-escritora-fotografa-de-banda. O perigo é as pessoas invejarem o meu marido físico-astronauta-cineasta-vocalista-de-banda-desconhecida-e-massa. O perigo é as pessoas invejarem, porque, enfim, vamos ter que, qualquer dia, ler jornal na fila do pão. O perigo é a gente descobrir que pode estar junto e se apaixonar por outras pessoas e então perceber que tudo bem, porque o amor que temos um pelo outro é pessoal e intransferível. O perigo é descobrirmos essa nova forma de amar e aí sermos felizes para sempre sem ninguém entender como é que pode. O perigo é mudarmos o mundo. O perigo é aprendermos todos os segredos do sonho lúcido e preferirmos dormir, dormir, dormir e dormir. Como dois bebês dorminhocos. Forever. É perigoso. Eu sei. Mas eu correria o risco fácil fácil. Cause cool kids, they belong together. Blame it on the blackstar.

Criado e editado por ju em 11:40:57 PM |

 

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006


recado ao senhor 903: rubem braga

Vizinho, quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal --devia ser meia-noite-- e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento do prédio é explícito, e se não fosse o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia.
Quem trabalha o dia inteiro tem direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor o meu, ficamos reduzidos a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros.
Eu, 1003, me limito a Leste pelo 1005, a Oeste pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao Alto pelo 1103 e embaixo pelo 903, que é o senhor. Todos esses números são comportados e silenciosos; apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar, depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo.
Quem vier à minha casa (perdão; ao meu nº) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar o 783 para tomar o 109 que o levará até 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305.
Nossa vida, vizinho, está numerada, e reconheço que ela pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando dentro dos limites dos seus algarismos. Peço-lhe desculpas e prometo silêncio.
Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou".
E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come do meu pão e bebe do meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela."
E o homem trouxesse sua mulher e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores e o dom da vida e a amizade entre os humanos e o amor e a paz.

Criado e editado por ju em 10:41:50 PM |